Home » História do cristianismo » Os Cinco Solas e a Reforma Protestante
12 minutos de leitura

Os Cinco Solas e a Reforma Protestante

Os Cinco Solas da Reforma Protestante são os princípios fundamentais que surgiram a partir deste movimento liderado por Martinho Lutero no século XVI. Os Solas, expressos em latim, representam as doutrinas centrais que os reformadores defendiam em contraposição às práticas e aos ensinamentos da Igreja Católica Romana naquele momento.

Tais preceitos não foram pensados sistematicamente pelos teólogos, tampouco foram estabelecidos através de um concílio. Eles são conhecidos atualmente por meio da consciência teológica da própria Reforma Protestante, sem data estabelecida ou vínculo a determinado pensador. Ao que tudo indica, em dado momento histórico, houve a necessidade de estabelecer essas doutrinas, propondo uma resposta única em meio aos variados desdobramentos religiosos que surgiram a partir de Lutero.

A possibilidade mais coerente diz respeito à realização, no ano de 1545, do ataque reativo do catolicismo à Reforma, movimentação conhecida como Contrarreforma. Neste período, o Papa III (1468-1549) convocou o Concílio de Trento. As bases reformadas trazidas à luz das Escrituras pelos reformadores fizeram com que a tradição e a voz de uma “falsa igreja” fossem caladas de forma cabal. Os Solas trouxeram convicção de fé e afirmação para que a Palavra de Deus recebesse o seu devido valor.

A autêntica fé que redime nossa alma é exclusivamente obtida através da pregação das Escrituras. Não existe outra maneira de cultivar a fé genuína, somente as Escrituras atentamente revelam esse presente aos seres humanos (Romanos 10.17). A salvação não pode ser conquistada por mérito humano, pois ela é inteiramente resultado da Graça divina, portanto, somente a Graça de Deus, um favor que ninguém na Terra possui merecimento, é suficiente para nos salvar (Efésios 2.8-9). Somente através da fé em Jesus Cristo, conforme proclamado no Evangelho, podemos nos justificar e nos considerarmos corretos (Romanos 1.16-18). Jesus Cristo é o selo da nossa vida eterna. A fé, em Seu sacrifício substitutivo, traz vida àqueles que antes estavam espiritualmente mortos devido aos seus pecados (João 3.16). Portanto, Deus é o agente principal da nossa salvação e, portanto, o único merecedor de toda a Glória (1 Coríntios 1.28-31).

Como visto anteriormente, os cinco Solas resumem a mensagem central da Reforma Protestante. Em sequência, veremos, detalhadamente, cada um desses pilares.

Solas Scriptura (Somente a Escritura)

A Igreja Católica Romana trabalhava da seguinte forma: em primeiro lugar, tomavam conhecimento da tradição geracional e, depois, observavam o texto bíblico, o que chamamos de Palavra de Deus. Contudo, aos nossos olhos modernos, essa prática é problemática porque quando colocamos a tradição anteriormente à Bíblia, automaticamente, estamos estabelecendo que, se em algum momento a nossa tradição for contra a Palavra de Deus, então, iremos dar vazão ao que nos é costumeiro, então, estaremos sempre no impasse de decidir entre a tradição e a Bíblia.

De acordo com a fé protestante, devemos deixar toda a nossa tradição e os padrões pré-estabelecidos quando nos referimos à Palavra de Deus; não estamos dizendo que não existem questões importantes na tradição, mas reconhecemos a autoridade bíblica sobre a Igreja de Cristo. Desta maneira, há um propósito de Deus relacionado à Palavra e a Igreja. Paulo escreve: “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3.16). A Palavra de Deus repreende, corrige e instrui o ser humano, e não a tradição. Veja as palavras do reformador João Calvino sobre a autoridade bíblica sobre a Igreja: 

“(…) se a Igreja cristã, desde o princípio, esteve fundada nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, a aceitação dessa doutrina, onde quer que se encontre, é anterior à Igreja, mesmo porque, sem ela, a Igreja nunca existiria. Portanto, é pura fantasia e mentira dizer que a Igreja tem autoridade para julgar a Escritura e que é ela que, a seu bel-prazer, determina a certeza que se pode ter ou não ter quanto à Palavra de Deus”.

Não é a Bíblia que deve se adequar ao nosso sistema de vida, mas é a nossa maneira de viver que deve ser semelhante à Bíblia.

Solus Christus (Somente Cristo)

E não há salvação em nenhum outro, pois abaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).

Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2.5).

Acima, temos dois versículos que baseiam a doutrina. A ideia de que a oração contínua aos homens e às mulheres que foram canonizados pela Igreja é um pensamento frequente no catolicismo romano, no entanto, o cristianismo protestante entende que nós temos apenas um mediador, desta forma, oramos apenas em nome de Jesus Cristo. Neste sentido: “não há salvação em nenhum outro”. 

Para reforçar a nossa tese, trouxemos uma citação da confissão de fé de Westminster, uma das maiores e completas confissões de fé que temos na teologia protestante. O texto diz: 

“O Jesus da Bíblia não está cravado no madeiro – símbolo da paixão de Cristo – no catolicismo, mas numa cruz vazia – símbolo dos evangélicos, indicando ao inferno e a todo céu que Ele ressuscitou! O nascimento, morte e ressurreição de Cristo são os pilares do Evangelho. Se um desses for retirado, ou acrescido de algo, todo edifício ruirá! A Confissão de Fé de Westminster diz: “O Filho de Deus, a segunda Pessoa da Trindade, sendo verdadeiro e eterno Deus, da mesma substância do Pai e igual a Ele (…) em sua natureza humana unida à divina, foi santificado e sem medida ungido com o Espírito Santo”.

Jesus é Deus, e como não há outro Deus, podemos dizer que Ele é o Deus verdadeiro. Nós não dependemos de outra entidade, também não dependemos de boas estruturas para servir a Cristo, nós só precisamos d’Ele “porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28). É somente através de Cristo que a nossa vida persiste. Sendo assim, os textos indicam que precisamos exclusivamente de Cristo.

E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3).

Sola Gratia (Somente a Graça)

A doutrina da Graça inclui a seguinte perspectiva: não há o que fazer, ou o que não fazer, para garantir a salvação individual. Portanto, quando dizemos que a Graça de Deus nos garante a salvação, não precisamos de indulgências para sermos salvos. A Graça de Deus entra em nossos corações nos convencendo de que somos pecadores, ela quebra e despedaça qualquer barreira que possamos construir para tentar lutar contra a verdade do Evangelho. Além disso, capacita-nos para que permaneçamos com Cristo até o fim. O trecho a seguir retrata essa ideia:

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tito 2.11-14).

Ressaltamos três verbos que aparecem no texto acima, são eles: salvar, ensinar e praticar, a fim de entendermos que é através da Graça de Deus que somos salvos e santificados. A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. O texto mostra que a Graça se manifestou a fim de salvar os povos de todas as etnias, todo o mundo. Esse favor divino manifestou-se para nos salvar da nossa natureza pecaminosa e do inferno. Ela nos ensina a renunciar à impiedade. A Graça também nos ensina a viver de forma santa, sensata e justa; ninguém consegue viver em santidade por si só, nós precisamos do impulso da Graça de Jesus para podermos buscar a santificação. “Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Filipenses 2.13). Dedicado à prática de boas obras. A Graça não somente nos salva e nos santifica, mas também nos posiciona em relação ao governo da criação; é através da Graça que passamos a praticar boas obras. A menção à prática de boas obras está no final do versículo, por outro lado, a salvação é revelada em primeira instância: isso mostra que nós não praticamos boas obras para sermos salvos, mas, então, que somos salvos para praticar boas obras.

Para finalizar o assunto, observamos comumente que muitos crentes buscam a sua própria salvação, como se quisessem mostrar para Deus que eles merecem ser salvos. Contudo, eles nunca conseguirão provar o merecimento do Evangelho de Cristo. A questão simples que necessitamos entender acerca disso: devemos nos render à mensagem central do Evangelho. Nós não merecemos ser salvos, mas, mesmo assim, Cristo nos salvou.

Sola Fide (Somente a Fé)

Os teólogos católicos questionaram o fato de Lutero ter usado o termo Sola Fide ao comentar o texto de Romanos. Ao pensarmos nessa questão, refletimos o porquê de tais homens não conseguirem enxergar o que o texto bíblico realmente nos mostra, visto que está evidenciado. Veja as palavras de Lutero sobre o acontecimento: 

“Essa seja a resposta à vossa primeira pergunta, e peço-vos que não respondais mais de outra maneira a esses burros e a seu berreiro inútil por causa do termo sola. (…) Entretanto, a vós e aos nossos quero mostrar por que eu quis usar o termo sola, embora em Romanos 3.28 eu não tenha usado sola, mas solum ou tantum (no que se vê com quanta atenção eles leem meu texto). Mas em outros lugares, utilizei sola fide e realmente quero os dois: solum e sola. (…) É verdade, estas quatro letras sola não constam ali, letras essas que os burros enxergam como uma vaca enxerga uma porteira nova, mas não veem que, mesmo assim, elas contêm o sentido do texto, e quando se quer traduzir com clareza e contundência, é preciso incluí-las”.

O texto bíblico que Lutero menciona diz: “pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei” (Romanos 8.28). Paulo escreve de forma clara: a fé nos justifica e não as nossas obras. A fim de pensarmos em outro texto, observe o que Paulo disse aos Efésios: “pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Efésios 2.8). A fé é um dom que se manifesta em nós através da Graça de Deus, é através da fé que podemos crer que Deus é real e, também, por meio dela cremos que Cristo voltará para buscar a Sua Igreja. 

Segundo o pensamento de Paulo e a posterior interpretação de Lutero, discorremos sobre a justificação pela fé; nós cremos que Jesus morreu na cruz e nos justificou, então, constatamos que Jesus, após ter morrido, ressuscitou dos mortos. Trazemos à memória as coisas que cremos, a fim de que possamos, por um momento, deleitar-nos nesta mensagem maravilhosa: recebemos um dom de Deus, e ele nos mantêm de pé.

Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus)

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).

Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não darei a minha glória a nenhum outro, nem a minha honra aos ídolos” (Isaías 42.8).

Sabemos que os Cinco Solas são embasados nos textos bíblicos. Desta forma, percebemos que, nos dois últimos mencionados, vemos de forma substancial que Deus é o único que merece a Glória. O Concílio de Trento parece discordar disso pelo fato de inserir Maria como santa e intercessora da Igreja junto ao Pai, pois está contido em um trecho do Concílio de Trento: 

“Insistindo nestes decretos, façamo-nos dignos da misericórdia e Graça do Primeiro, Grande e supremo Sacerdote, Jesus Cristo, Deus, pela intercessão de Sua Santa e Imaculada Mãe, nossa Senhora e a de todos os santos”.

Sendo assim, com base no texto de Isaías citado anteriormente, observamos que não existe a ideia de equivalência entre Deus e Maria, pois o texto evidencia a singularidade de Deus. Embora Maria tenha sido uma mulher cheia do Espírito Santo e, também, valorosa, ela era humana, assim como nós somos. Deus não é humano, Ele é Espírito. 

O fato de os Cinco Solas evidenciarem a Glória somente a Deus não se estabelece apenas com Maria, mas ultrapassa essa questão. A doutrina lembra-nos que não devemos conceder a Glória a variadas coisas que não sejam o Senhor; isso não evidencia que Deus é um narcisista, porque Ele não cabe nessa nomenclatura, sobretudo, a nossa alma espera, almeja e clama por seu Criador, isto é, bendizer a Deus é um ato de amor, a fim de que possamos permanecer n’Ele. Se não adorarmos a Ele, nós adoraremos a outros deuses que construímos. 

Conclusão

Os cinco Solas são o suprassumo da teologia reformada, o que nós, cristãos protestantes, entendemos como uma teologia bíblica. Neste sentido, plantamos igrejas e anunciamos o Evangelho mas, infelizmente, são poucas igrejas que preservam estas doutrinas.

A Igreja, como instituição, distanciou-se do pensamento bíblico há muito tempo e, talvez, tenha até mesmo caído no mesmo erro da Igreja Católica Medieval – de forma sorrateira, os cristãos estão induzindo as pessoas a comprarem a salvação pessoal. Por isso, reflitamos sobre a Reforma Protestante, visto que precisamos de uma reforma integral das igrejas em nosso tempo. Com certeza, precisamos deixar de lado alguns costumes e voltarmos para a compreensão plena das Sagradas Escrituras. Que Deus nos ajude nesta empreitada!

Escrito por: Kennedy Carvalho.

Revisado por: Bárbara Ondei.

5/5 - Total de Avaliações: 1
Subscribe
Notify of
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
0
Would love your thoughts, please comment.x